10 dias em silêncio e uma meditação que pode mudar o mundo. Descubra a técnica Vipassana.

Depois de quase 4 meses na estrada viajando por todo o sul do Brasil, fizemos uma viagem pra dentro.

Após 10 dias em silêncio, bateu uma tagarelice braba e resolvemos falar sobre nossa experiência dessa viagem interna. De volta ao conforto de nosso carro-casa.

Sentada na posição de perna de índio, coluna ereta e com a respiração leve e tranquila aí vai a retrospectiva da nossa experiência dos últimos 10 dias de “nobre silêncio” vividos num curso de meditação Vipassana.

Quando descobrimos a existência do Vipassana pelo documentário Dhamma Brothers(2008) – que mostra presos do “corredor da morte” que têm contato com a técnica -, pensamos: “Isso pode mudar muita coisa dentro de cada um, imagina no mundo todo então!”. A prática ajuda a “ver as coisas como elas realmente são, uma das mais antigas técnicas de meditação da Índia. Foi redescoberta por Buda Gotama há mais de 2500 anos e ensinada por ele como remédio universal para males universais, ou seja, a Arte de Viver.” Segundo o site oficial. O objetivo é erradicar as impurezas mentais para alcançar a felicidade; cortar o sofrimento humano pela raiz. Tarefa fácil, né?

Mas será que é muito pesado ficar 10 dias sem ler, escrever, ouvir música, em silêncio absoluto? Todos os melhores momentos e aprendizados costumam vir depois de momentos de sacrifício. Depois de sairmos da nossa zona de conforto. Acho que vale tentar, concluímos.

Para a nossa felicidade, existe um centro aqui no Brasil, o Dhamma Santi no interior do Rio de Janeiro, numa cidade chamada Engenheiro Paulo Frontin. As vagas estão sempre preenchidas, então tivemos que ser bem rápidos para conseguir. Assim que abriram as inscrições no dia 1 de Janeiro, garantimos nossa participação para o dia 23 de Março. Esse era nosso único planejamento com data marcada da expedição. Sempre que nos perguntavam pra onde íamos na semana que vem, respondíamos: “Não sabemos. Só sabemos que dia 23 de março temos que estar no Rio pra viajar um pouco pra dentro”

O mais legal é que todos os centros de Vipassana espalhados pelo mundo, são geridos por voluntários e doadores. Nem mesmo os professores são remunerados para estarem ali. Os cozinheiros e todo pessoal do staff são alunos antigos. Ninguém pode doar nada enquanto não experienciar os ensinamentos de Dhamma (o caminho da verdade final) porque não deve existir a relação cliente X fornecedor. Um modelo totalmente colaborativo.

O+silêncio+por+longos+períodos+é+uma+coisa+que+muitos+morrem+sem+experienciar

O lugar é todo bem cuidado, no meio da mata atlântica, com flores e animais por todo o lado. Muita decoração em madeira. Simplicidade. Na recepção deixamos nossos pertences como celular, carteira, cadernos e já de cara nos separamos em grupos de homens e mulheres. Logo começou o “nobre silêncio”, que significa abster-se totalmente da comunicação com outros, verbal ou física, mesmo que por intermédio de gestos ou olhares. Sempre em busca do silêncio mental. Vivemos no coletivo como se estivéssemos sozinhos. Dormimos em quartos com mais duas pessoas completamente desconhecidas. Placas de “LIMITE” mostram as áreas que não podemos acessar ao longo do terreno. A disciplina é essencial para uma boa prática.

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Nos primeiros três dias aprendemos a meditação Anapana que é a observação da respiração no seu natural. Sem forçar nem nada. Começamos a focar a consciência nas sensações causadas pelo contato do ar com nossas narinas. É uma forma de nos concentrarmos. Com o tempo, começamos a focar toda a nossa atenção apenas na parte entre o nariz e o lábio superior: a morada de nosso bigode. Pode ser coceira, ardência, formigamento, qualquer sensação. O rótulo não é importante. O importante é sentir a sensação que está acontecendo. Observar a realidade nua e crua, assim como ela se apresenta. A verdade do aqui-agora. Conseguimos nos concentrar profundamente nessa pequena área do nosso corpo, até sentirmos uma sensação extremamente sutil, como se fossem moléculas se mexendo daqui a ali. No quarto dia realmente se inicia a meditação Vipassana.

Diferente de tudo que eu conhecia sobre meditação (que é bem pouco), essa técnica não tem nenhum mantra, visualização, simbolismo e não está conectada com qualquer religião que seja. Ela consiste simplesmente na observação da realidade presente e em sua aceitação. Na sala de meditação em grupo, somos guiados por uma gravação de áudio pelo próprio S.N.Goenka(o cara que expandiu a técnica para o mundo no século passado). Passamos a experienciar aquelas sensações que surgiram no bigode pelo corpo todo. Desde o topo da cabeça até os dedos dos pés. Com prática você consegue um fluxo livre por todo o corpo. E a observação continua. De cada parte, de cada sensação diferente até o final do curso. Chegou uma hora que deveríamos manter a firme determinação para ficarmos imóveis. É essencial passar uma hora sem qualquer movimento para compreendermos a lei da impermanência, “anicca”(se pronuncia “anitcha”. Tudo que surge, desaparece. Essa é a lei universal. A lei da natureza. Até os bits virtuais desse texto que viajam pela internet mundial vão desaparecer um dia. Virarão outra coisa. O que, não sabemos.

Tiveram momentos que eu pensava: “GENTE! Vim pra uma participação especial num dos filmes dos Jogos Mortais sem saber. A dor era tamanha no ombro que expandia pra clavícula, as vezes eram as pernas, a coluna, saia dali DES TRU Í DA. Por outro lado, tiveram sessões repletas de sensações muito agradáveis. O desafio é de não criar aversão pelo desagradável e nem apego pelo agradável pois é nesse vício da mente que surgem os Sankaras(espécies de “sementes” que são alimentadas pelas nossas sensações mal resolvidas tanto de apego pelo bom, quanto de aversão pelo ruim). Devemos manter sempre a “equanimidade perfeita”.

Em português claro: se uma coisa boa acontece, que bom! Vamos aproveitar! Mas ao mesmo tempo FODA-SE, não vamos nos apegar a ela. Porque com certeza isso vai passar. Por outro lado se uma coisa ruim acontece, que pena. Essa é a realidade do momento. E FODA-SE também! Isso também com certeza vai passar!

Mas é complicado. A mente não para! Lembranças e projeções boas e ruins surgiam a todo momento trazendo sensações que deveriam ser friamente analisadas. Sem apego nem aversão. Tranquilamente. Esse é o trabalho. Conforme os dias foram passando, fui começando a desenvolver meios de lidar com o barulho mental.

Junto com todo o trabalho interno, vêm as palestras do Goenka às noites. Com uma lábia calma vai falando sobre diversos assuntos: a importância do auto conhecimento, da prática do bem, da felicidade na vida. Ele sempre enfatiza a necessidade do alinhamento entre teoria e prática na vida dos indivíduos. Um não caminha sem o outro. Outro ponto interessante é o fato de sempre chamar atenção para o caminho do amor e do bem.

O dia a dia era bem intenso. Dá uma olhada:

04:00    Chamada

04:30-06:30 Meditação na sala ou no quarto

06:30-08:00 Desjejum e descanso

08:00-09:00 Meditação em grupo na sala

09:00-11:00 Meditação na sala ou no quarto, segundo as instruções do professor

11:00-12:00 Almoço

12:00-13:00 Descanso e perguntas individuais com o professor

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Vista e dormitórios

13:00-14:30 Meditação na sala ou no quarto

14:30-15:30 Meditação em grupo na sala

15:30-17:00 Meditação na sala ou no quarto, segundo as instruções do professor

17:00-18:00 Lanche e descanso

18:00-19:00 Meditação em grupo na sala

19:00-20:15 Palestra do professor na sala

20:15-21:00 Meditação em grupo na sala

21:00-21:30 Perguntas abertas na sala

21:30 Repouso. Apagam-se as luzes

No último dia fizemos uma meditação conjunta para compartilhas toda sabedoria e coisas boas que aconteceram ali com todo o universo. Foi emocionantemente lindo! Por fim, começou a tagarelice e diversas novas amizades. Todos felizes.

Intenso! Mas valeu muito a pena.

Turma toda reunida! <3

Turma toda reunida! <3

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