Agrofloresta na cidade: garantindo alimentos na paz ou no caos

CURSO DE AGROECOLOGIA FOI OPORTUNIDADE DE BOTAR MÃO NA TERRA E SABEDORIA NA CABEÇA

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Era uma vez, num reino distante, um ministro da Agricultura que não entendia nada de agricultura. Naqueles tempos obscuros do passado, o Jô Soares tinha um quadro ótimo em que tirava sarro do Delfim Netto (sim, ele ainda está por aí ocupando uns cargos até hoje) falando coisas como: “Precisamos plantar mais árvores de lasanha” ou “Eu adoro olhar aquela plantação de cachorro quente. Eu sei que pão não dá em árvore! Estou falando só da salsicha!”

Bem longe disso, mas também bem distante do ideal – para quem vive falando e escrevendo sobre alimentação saudável – estou eu.

Eu sou praticamente uma nutricionista amadora, aficcionada pelos efeitos da comida no organismo, escrevo sobre agroflorestas e hortas urbanas, questiono a indústria alimentícia e sua meia-irmã farmacêutica, frequento eventos de Slow Food, ajudo a Bruna a fazer rangos PANC para nossos cursos, faço parte da gestão da CSA Brasília, mas mal sei reconhecer um pé de feijão ou identificar uma árvore de paçoca (brincadeira!). Enfim, sou um embuste.

Ou era, melhorei um pouco no meu próprio conceito agora que fiz um curso super esclarecedor de agrofloresta. O problema de quem passa mais tempo lendo do que agindo é querer entender o mundo pelos manuais, mesmo sabendo que a teoria na prática é outra. Eu não preciso conhecer as sementes ou dominar métodos de plantio (adoraria), mas sentia uma necessidade gritante de saber o que eu estava fazendo quando passava horas na agrofloresta da 206 Norte podando margaridões. Na semana seguinte eles eram mais, e maiores, e eu me sentia ainda mais diminuída. Fazer o que, sou do tipo que precisa de embasamento teórico para tudo.

Quando o pessoal do Projeto Re-Ação 206 avisou que iria ter um curso de agroecologia, fiquei muito feliz e me inscrevi imediatamente. Mal sabia eu que iria ficar ainda mais feliz fazendo o curso.

O Igor é o ‘pai’ da maior agrofloresta urbana do Brasil, embora ele insista em despersonalizar a iniciativa; o projeto é de todos, e ele não quer mais ser a pessoa que sempre dá as entrevistas. O curso já começou nessa pegada de integração: encontramos um monte de potes de sementes em um canto do salão de festas onde começamos o sábado, e ele pediu para os alunos desenharem uma mandala com o material, em silêncio. A gente vive nesse mundo barulhento sempre falando e teclando com todo mundo o tempo todo, mas no fundo sabemos que, quanto mais intimidade, mais confortáveis são os momentos sem conversa. Foi assim que em meia hora já eramos um grupo compartilhando histórias sobre plantas. Antes de semear conhecimentos, o Igor plantou uma turma de alunos.

É muito gratificante conhecer gente que está olhando na mesma direção. Também é muito bom receber saberes teóricos e práticos de quem aprendeu assim, estudando e plantando, errando, insistindo e colhendo. Além do Igor recebemos conhecimento da Jéssica, que sabe tudo sobre sementes e trouxe sua experiência adquirida entre os mestres do Xingu. Também importantes para o sucesso do curso foram o Cauê, que já transformou uma área degradada em agrofloresta e está cheio de planos para expandir o conceito de CSA, a Júlia, que organizou a logística e a alimentação, a comida do Buruti Zen que é sempre aquela delícia, e o clima, que nos presenteou com sol ameno de dia e uma rara chuva fora de época de noite.

O objetivo do curso era esclarecer quais são os fundamentos básicos da agroecologia e introduzir os alunos na parte prática do manejo. Tivemos um pouco de aula teórica, uma parte mista com o Igor mostrando as plantas e explicando o significado prático dos conceitos (foi o momento que eu mais gostei, quando a semente, digo, a ficha caiu) e depois pusemos a mão na terra, preparando o solo, plantando mudas e sementes, descansando um pouco – se você acha que usar uma enxada é moleza, pense na velha expressão “carpir um lote”: capinar é tarefa para fortes! – e sorrindo beatificados para os nossos resultados. Plantar é fazer mágica, é muito gratificante ver que o seu suor e esforço são capazes de gerar vida. Tanto é verdade que na semana seguinte ao curso o grupo do Whattsapp continua funcionando a todo vapor, com os alunos se revezando espontaneamente para ir lá regar os oito canteiros agroflorestais que nasceram no final de semana.

Aprendemos que agroecologia é um sistema que respeita o ecossistema, o solo, a água, a diversidade, a saúde do consumidor, do agricultor e do planeta. Na prática, imita a forma de funcionamento da natureza, não usando agrotóxicos mas sim outras técnicas para controlar pragas e insetos, como caldas, chás, controle biológico. Também substitui adubo químico por manejo da fertilidade do solo através de estercos, compostagens, adubos verdes, sucessão de culturas. Em resumo, a agrofloresta é uma forma de plantio que parece menos com uma horta e mais com uma floresta de verdade, onde basicamente tá tudo junto e misturado: o máximo de culturas possíveis, produção vegetal e animal, plantas adubadeiras, forrageiras, hortaliças e árvores lenhosas e frutíferas. Tudo isto disposto em consórcio, o que significa que em um mesmo canteiro encontram-se diferentes espécies. Algumas vão prosperar e outras vão servir como adubo verde, cada uma cumprindo seu papel na melhora da fertilidade do solo. Mas há muita lógica nesta aparente bagunça. Temos árvores de estrato alto, que não são necessariamente as mais altas, mas sim as que mais precisam receber sol direto. Portanto, se houver uma mais alta próxima a ela, estarão competindo. E o ‘pulo do gato’ da agrofloresta é que não há competição, mas sim harmonia. As plantas vicejam graças às relações de cooperação e sintropia. Como em uma sociedade perfeita <3. 

Continuo não conhecendo as plantas pelo nome, mas entendi a razão de ser dos canteiros agroflorestais, do adubo verde, a importância do manejo e das podas seletivas. A única coisa em que eu continuo igual ao Delfim Netto é que não sei do que é feita uma salsicha. E nem quero saber!

luciana

Luciana Sendyk escreve. Livros (autorais ou de terceiros), textos, anúncios, sites, blogs, peças de teatro, projetos diversos e, especialmente, aqui no PorQueNão?.Sanitarista de formação, ecossocialista por opção e vegana por ideologia, feminista e engajada, o que não falta é tema para redação. Acredita que escrever é um ato político e que atuar pode transformar o mundo.

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