Uma aventura na Austrália com Bill Mollison: entrevista com Dédi Conard

Linearidade existe? A oportunidade de conviver e com Bill Mollison, cuidando dele em seus últimos anos de vida, fez a Andréa Conard entender que fazemos parte de ciclos dentro o de um grande sistema natural com o qual precisamos interagir, quebrando a ideia de rotinas imaginárias.

Andréa, também conhecida como Dédi, se aventurou numa viagem à Austrália, que a fez ter contato com a permacultura por meio de ninguém menos que um de seus criadores. Conversamos com ela sobre como as viagens pela Austrália e as canecas de chá na companhia de Bill afetaram a sua vida e a forma de ver sua a própria existência.

 

Entrevista realizada por Damaris Souza

 


PorQueNão? : Por que você foi para a Austrália? O que você fazia (não só profissionalmente, mas atividades em geral) antes de viajar para lá?

Dédi Conard: Antes e depois de morar na Austrália, minhas grandes paixões sempre foram ligadas às artes e às interações das pessoas com o território. Desde muito pequena tenho enorme amor pela dança, pelos usos do corpo, por ritmos e musicalidade. A capoeira, especialmente, conseguiu me mostrar uma resposta da união de todas essas paixões, somadas à uma visão crítica e propositiva de um mundo mais justo e libertário.

A FAU foi um belo momento da minha vida, que me demandou bastante dedicação, me trouxe bastante conhecimento em diversas áreas e muito bons amigos. Profissionalmente, me dediquei quase que integralmente ao direito à cidade e ao meio ambiente – que estão diretamente relacionados e são interdependentes. Trabalhei com educação ambiental no Programa USP Recicla, com habitação social na Assessoria Técnica Peabiru – Trabalhos Comunitários e Ambientais, com pesquisa e projetos no Grupo Metrópole Fluvial e no Laboratório de Direito à Cidade, ambos na FAU-USP. Fora esses trabalhos mais formais, trabalhei com minhas ilustrações, além de vender muito bolo e brigadeiro pra ajudar a me manter durante a faculdade.

Participei de um coletivo de estudantes chamado EPA! Espaço, Projeto e Ação. Também trabalhei com levantamento de patrimônio edificado, para uma empresa de arqueologia de contrato. Essa atuação nunca me proporcionou estabilidade financeira, como as universidades públicas prometem (e visam). Hoje, há uma visão altamente mercadológica, desde o vestibular, o ingresso do estudante, até qualquer atuação de continuidade ali dentro.

Bill costumava se dizer altamente oposto às universidades e quaisquer outras instituições. Hoje eu entendo, mas não vejo outra forma de combater as opressões que não estando dentro delas, lutando para que se humanizem. Filha de acadêmicos, a universidade faz parte da minha realidade, das minhas raízes. São coisas que podem ser muito belas, e que eu não posso negar.

Toda essa vivência, somada à Austrália e às aventuras da vida pessoal como um todo, me permitiram olhar para a vida com outros olhos, e entender que não há situação estável na vida. Ela, a vida, e nós mesmos, somos instáveis, e tudo passa muito rápido. Queria ver mais paisagens, pessoas, animais e vegetações, conhecer e experimentar mais vidas. Foi uma mistura de acaso, carinho e sorte. Na verdade: por acaso, tive a sorte de ter muito carinho e acesso a boas oportunidades.

Fui à Austrália por intermédio da minha irmã, que morava lá já há alguns anos. Foi ela quem financiou minha viagem e cuidou de mim grande parte do tempo. Fui para visitá-la, matar a saudade e conhecer um pouquinho da sua nova casa com a intenção de voltar, um ou dois meses depois. Tinha passado em um bom concurso público, e estava animada para voltar e me estabilizar em São Paulo como urbanista.

Não consegui. A soma daquela aventura, e da vontade de vivê-la mais intensamente, com algumas desilusões pessoais, me demandou uma redescoberta de mim. Tive que – e quis – aprender a desapegar e aproveitar, ao máximo, daquela oportunidade única que eu tinha nas mãos. E assim foi. Tudo novo: crescimento, dor, prazer e revelação.

 

PQN? : Como você conheceu o Bill Mollison e como era a sua relação com ele?

DC: Bill e a permacultura, por incrível que pareça, apenas reforçaram minha decisão, mas não foram (não diretamente, apesar de eu acreditar que ela é a forma de pensar que nos leva a tomar este tipo de decisão) os motivos pelos quais fiquei na Austrália e mudei meu rumo.

Eu descobri que a permacultura havia sido idealizada e co-criada pelo Bill, junto com o David Holmgreen, quando em Melbourne, em todo esse turbilhão de indecisão de voltar ou não pra casa, para as pessoas amadas, pra vida de concursada-pra-ter-todo-o-seu-conhecimento-e-tempo-calados e-engavetados-pelo-governo-tucano.

Essa descoberta foi o estopim, o momento que veio o “ARQUITETO” e me ofereceu as duas pílulas, e eu optei pela vermelha.

Fiquei nas terras austrais.

Bill ainda era vivo, e estava pertinho de mim, morando novamente, após anos viajando o mundo, em sua terra natal: a Tasmânia.

Decidi entrar em contato.

Morei com Bill e sua esposa em sua fazenda, Tagari Farm, na Tasmânia, por 6 meses. Depois de um mês os ajudando com a manutenção do lugar, me dei tão bem com Bill que passei a ajuda-los dentro da casa.

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Andréa, Bill e sua grande amiga, Jude Fanton

Fiquei por esses meses convivendo intensamente com esse homem de mente e coração brilhantes, e sua companheira Lisa, uma figura também incrível. Estive ali, mergulhada nessa aventura, aprendendo, crescendo e me curando dos males que o mundo me trouxe pra vencer nessa época difícil, rica e belíssima que vivi.

Bill e eu fizemos uma viagem de carro de muitos dias, uma aventura digna de livro. Fomos juntos revisitar sua antiga fazenda, onde foram oferecidos os primeiros cursos de permacultura e criado o Instituto de Permacultura da Austrália. O instituto fica no município de Murwillumbah, em Nova Gales do Sul, e levamos três dias e três noites só de ida.

Neste pequeno “nicho de espaço e tempo” na Terra e em nossas vidas, esse meu novo universo se revelou pra nunca mais se perder em mim. Um cara de mente brilhante, um coração incrível, e uma história de aventuras e generosidade sem precedentes, em uma surpreendente amizade com essa menina-mulher, se descobrindo, querendo se curar, ver e ser vista, querendo voltar a amar, querendo se amar. Um livro. Ou alguns discos, muitas canções. Muitas lágrimas, muitas conversas e chás vermelhos… foi como um sonho. Como um sopro. Como a vida é. O novo e o velho, se enfrentando e descobrindo. Se permitindo cuidar e amar.

Eu dei minha força física, minha vitalidade e vontade de viver, de cantar e dançar novamente. Joguei pra ele, que me rebateu suavemente, com um mar de sabedoria, de entendimento, de pertencimento, generosidade e lucidez. Ainda que Bill já ameaçasse alguns traços de falta de memória, falta de força física e equilíbrio no andar, se mostrou uma alma de diamante: bela, forte, resiliente e das mais brilhantes.

Ouvir as histórias, no meio da madrugada, esfumaçadas de chá vermelho com um pingo de leite e uma colher de chá de mel (era religioso, e eram cerca de oito vezes ao dia…) foi das mais lindas experiências que alguém poderia viver. Era incrível ouvir histórias, cantos e contos daquele homem que, como um bebê, descobria vida em tudo, resistia ao sono. Não por querer ver mais novidades, Bill já tinha visto quase tudo, mas por prever o breve final da vida, por saber de sua passagem inevitável, próxima e certa.

Bill foi meu mundo por esses tempos.

E eu tive a impressão de ser o dele também. Foi o mais alto grau de intimidade que tive com alguém. Não, ele não foi um namorado, não foi um pai nem um irmão. Bill foi meu amigo confidente e meu grande incentivador. Me encorajava a desabrochar, a treinar, a cantar, a brilhar. Me apoiaria no que fosse. Ele queria ver brilho na terra. Então colocava. Em todos nós.

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Bill Mollison

PQN? : Como a sua experiência com ele mudou ou influenciou o seu cotidiano?

DC: Acho que Bill e sua cria, a permacultura, me trouxeram a noção da inexistência de linearidade, de cotidiano. O cotidiano não existe. A não ser por nossas cabeças.

Entender nossos ciclos, nossas naturezas – que são UMA SÓ – nos permite viver em harmonia, e a vida passa a ser outra coisa. Não queremos mais estabilidade, rotina, a não ser aquelas que competem aos ciclos naturais de nossos corpos e da natureza ao nosso redor. Nós nos entendemos, então, como fruto de um grande sistema natural, que quer entrar em sintropia (energia organizada, trabalhando e se transportando ciclicamente), mas não tem conseguido por nossas criações: a necessidade de rotinas imaginárias.

Passei a entender que de cotidiano, tenho apenas o acordar, o respirar, o sentir fome, sede, o digerir, o menstruar… e que o restante, são escolhas. Esse pode ser o último dia da minha vida. O que eu fiz com ele? O que tenho feito, farei para que ele valha a pena? Para que essa grande estrela de energia, que sou eu, e que é toda a vida que passa por mim valham a pena, não se percam em apenas passar por mim?

Acho que foi isso. Tudo.

Minha vida é viva e não é só minha.

Tem sido uma busca constante por significado, bem estar e sintropia, no geral.

É claro que é mais fácil escrever a respeito. Na prática estamos todos em busca dessas verdades mais puras, mais naturais. Estou cheia de dicotomias, fragilidades, incertezas e contradições. Sou uma mulher como outra qualquer, uma menina e uma grande lutadora. Minha essência é toda mutante, em luta constante por respostas.

A intenção de distribuir permacultura se aprimorou em uma grande cooperativa, um coletivo, que se estendeu para um coletivo feminista, que se estendeu para um coletivo feminista de mulheres ligadas às artes e ancestralidades como a capoeira de angola. Ainda que o universo pareça ter diminuído, ele se ampliou. Foi parar em um mundo de possibilidades, desafios e belezas sem fim. Um mundo de irmandade, de cooperação, de empatia, de amor. Um mundo altamente feminino, forte, incrível como a alma da mulher.

Eu sou eternamente grata ao universo, à vida, e especialmente ao Bill e as pessoas – especialmente a essas mulheres incríveis – com quem tive a honra de me fortalecer e reencontrar.

A formação das Permacultoras Coletivas é reflexo dessas ocasiões lindas que ocorreram desde aquele dia chuvoso de despedida e decisão dolorosa. Eu não me arrependo de nada, e agradeço ao universo, à minha família, (especialmente à minha irmã, Carolina) ao Bill e sua esposa, Lisa, e à vida todos os dias, pelas pessoas, principalmente por ter a honra e alegria de ser parte integrante desse coletivo de mulheres, de irmãs, que acreditam umas nas outras, e que, ainda que com tantas dificuldades que enfrentam, se acompanha, empodera e apoia. Juntas, somos manifestação viva e prática da força do feminino, das nossas ancestrais e irmãs. Somos a força da vida.

PQN? : Quando você voltou para o Brasil? Qual a relevância dessas práticas para o contexto brasileiro?

DC: Voltei em agosto de 2015. A relevância das práticas da permacultura abraçam a terra, o natural, como um todo. É a mesma para todo e qualquer contexto. É entender, é se assimilar, e fazer ser. Permacultura é importante aqui, na Dinamarca e no Haiti. Todxs nós somos seres importantes, para bem ou para mal. E não somos nada sozinhos – e isso também funciona pra bem ou para mal. Se os caras de países “estáveis” como a Dinamarca ainda têm a ilusão de que estão felizes, de que está tudo bem, é tão ruim, e interrelacionado com os caras do Haiti sofrendo de maus tratos, dor, fome. Somos todos responsáveis, culpados e vítimas. Não sabemos como lidar com o que nós é dado: a vida, a energia e o privilégio de se estar vivo.

Para o contexto brasileiro, entender os sistemas naturais e cuidar deles, se responsabilizar por sua existência, valorizar saberes, sabedorias e naturezas, é tão essencial e indispensável quanto para o contexto Dinamarquês, ou o do Haiti.

Estamos vivos e juntos em um universo cheio de mistérios e belezas, que esquecemos de observar, de interagir.

 

 

PQN? : Como você vê a mulher na permacultura?

 

DC: A causa da mulher é encarada por nós com relação às outras causas como a questão das diferentes realidades sociais no mundo: como todas as causas daqueles que não tem certos privilégios. A causa de se empoderar, se valorizar e se mostrar como essencial para a vida, para a sintropia da vida.

MInha mãe sempre me disse que eu visto todas as camisas, de todas as causas,  e que preciso focar em uma. Eu entendo que ela se preocupe, ela é mulher, é mãe, me deu vida. É ela quem está, esteve e estará ali, caso qualquer coisa me ocorra. Ainda assim, eu não acho que causa nenhuma se justifique, sem que todas as outras não sejam tão legitimadas e abraçadas quanto as nossas. A nós, mulheres, nos cabe lutar pelas nossas, e a nós, seres vivos, nos cabe apoiar, e dar condições de vida e brilho a todxs nós.

A mulher na permacultura é a mulher na luta por sua mais linda função, dar e cuidar da vida. É uma coisa só. Não há nada que nós separe da permacultura, a não ser a falta de entendimento, a desconexão com nossas naturezas e existência.

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PQN? : Como o Permacultoras Coletivas funciona? Onde acontece e como as pessoas poderiam colaborar?

 

DC: Somos um grupo livre e itinerante composto por mulheres permacultoras, portanto, feministas. É uma interdependência, na nossa visão. Viver permacultura é se empoderar de sua importância e imprescindibilidade, é se entender como fruto e flor da vida, portanto, responsável e criadora desta.

O coletivo é livre e aberto a opiniões, membras, parceirxs e colaboradorxs. Há uma necessidade financeira, e as nossas vidas têm se dividido entre os trabalhos do coletivo e nossa busca para nos mantermos e às nossas famílias. Portanto, doações e a colaboração com divulgação, ideias e espaço também são muito bem vindas, contanto que minimamente alinhadas à nossa visão coletiva.

Atualmente temos membras na grande São Paulo, na Bahia, na Colômbia e no Uruguai.

Nossos trabalhos, em sua maioria ligados ao território, ao compartilhamento de nossos conhecimentos e ao resgate da nossa ancestralidade, são normalmente registrados e compartilhados em nossa página: Permacultoras Coletivas.

 

 

 

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