O que realmente está sendo feito com os solos rurais ou urbanos?

Ontem, em 15 de abril, foi comemorado o dia nacional da conservação do solo, conforme a lei federal nº. 7.876, de 13/11/1989. A data escolhida foi em homenagem ao dia do nascimento do conservacionista estadunidense Hugh Hammond Bennett (1881-1960), pioneiro do assunto.

O “Pai da conservação” em suas análises e pesquisas sobre erosão e mutabilidade do solo, levantou a seguinte pergunta: o que realmente está sendo feito com os solos rurais ou urbanos? E assim uma série de estudos o levou à compreensão sobre como cuidar melhor do recurso mais precioso para a vida e manter sua fertilidade.

Para iniciar a discussão sobre como podemos conservá-lo, vamos primeiro entender o que é o solo: formado a partir de um processo chamado pedogênese, em que a rocha “mãe” (estrutura sólida proveniente do resfriamento do magma), chamada geralmente de cristalina (devido à presença de minerais originais – em formação cristalina, estrutura ordenada ao nível atômico) passa por processos físico-químicos e biológicos denominados sedimentação, que resultam em estruturas menos rijas destes minerais e mais ricas em materiais orgânicos, proveniente da decomposição de outros resíduos lançados no ambiente. Ainda, também devido ao tipo de resfriamento e composição química do magma, a rocha mãe se diferencia e cria tipos diferentes de solos e sedimentos. Assim é composto um material rico em nutrientes e minerais em dinâmica constante, que permite a interação de outros organismos que proporcionam a vida em suas várias formas.

A deterioração do solo é o processo pelo qual este vai perdendo seus nutrientes e tornando-se um ambiente doente e inóspito. Esta degradação provém de causas naturais, mas podem ser intensificadas por ações humanas predatórias. E diversos são os processos de desgaste do solo, como:

– Lixiviação: dada pela infiltração de um fluido no solo, pode extrair, solubilizar ou “lavar” os nutrientes do solo. Agravada pelo desmatamento, chuvas intensas, monocultura, irrigação (com ou sem agentes químicos) ou todos estes combinados;
– Erosão: é o processo de decomposição ou modificação da estrutura do solo, causada por ações externas e intempéries, como chuva, vento, mudança de temperaturas etc., intensificada em áreas com solo exposto, sem vegetação, proveniente do desmatamento, associadas também à lixiviação e voçorocas;
– Voçorocas: são buracos no solo, causados pela erosão e mais comum em áreas desmatadas e de vegetação baixa, se dão pelos grãos expostos se tornarem mais facilmente removíveis e serem carregados pelas chuvas, formando fendas no solo parecidas com “rasgos” nas terra;

"Repor no seu lugar as cousas que os homens desarrumaram; Por não perceberem para que serviam." Poemas Inconjuntos - Alberto Caeiro.

“Repor no seu lugar as cousas que os homens desarrumaram; Por não perceberem para que serviam.” Poemas Inconjuntos – Alberto Caeiro.

– Assoreamento: devido à retirada de vegetações das margens dos rios (matas ciliares), os solos são ficam expostos à erosão e são carregados para o fundo dos rios, onde se acumulam e modificam sua forma. O processo contribui com o aumento das áreas de enchentes (encharque), pelo fundo tornar-se raso demais para comportar o volume d’água antes habitual, isso modifica toda a interação ao redor das margens do rio e também seu rumo;
– Esgotamento: é a perda total de nutrientes no solo, que o torna infértil, sem vida. Ocorre devido a ações predatórias e desequilibradas, principalmente pelo uso inadequado das práticas agrícolas de monocultura e ainda com a utilização de agentes químicos, não havendo a reposição de nutrientes, já que os mesmos são retirados junto com a produção e por processos de exposição em conjunto de outros processos de degradação;
– Laterização: através de um processo químico de intemperismo, forma-se uma camada dura de hidróxido de ferro ou alumínio na superfície do solo, que impede que raízes se infiltrem e instalem. O desmatamento e queimadas aceleram este processo, que removem a proteção da superfície e deixam de fornecer material orgânico (nutrientes) para o solo, o que também inviabiliza a prática da agricultura;
– Salinização: é o acúmulo excessivo de sais minerais no solo, aonde vai se assentando sobre a superfície uma dura camada de sais que agrava a infertilidade do solo e pode resultar em desertificação. Causada pela intensa evaporação da água, ocorre em regiões muito quentes, e sua principal incidência é sobre áreas cuja irrigação e métodos agrícolas não são adequadas ao clima e propriedades do solo.

A degradação do solo intensificada por processos antrópicos pode criar um cenário onde a terra se torna infértil, com baixa concentração de nutrientes, dificultando ou até inviabilizando a prática de agricultura.
Importante também frisar que as erosões podem causar acidentes fatais, desabrigando pessoas, principalmente em áreas de declive acentuado, com deslizamento de encostas, podendo também interromper fluxos em rodovias e vias em geral.

Mas o que podemos fazer para evitar isso?

Conscientização: conhecer os fatores que levam a estes desgastes é importantíssimo para evitar o desmatamento em áreas de risco e fazer o manejo vegetal adequado para evitar os problemas relacionados à degradação do solo.

Manejo ideal: procurar órgãos responsáveis para consultoria; aprender sobre podas; plantio e retirada de árvores de maneira legal e viável; e, espécies adequadas ao clima, regiões e sintropia (conjunto de espécies cultivadas em harmonia).

Práticas agroecológicas: são maneiras de relacionar a cultura com o local agriculturável, não agredindo o meio ambiente inserido na produção, agregando valor ao terreno e ao produto final por evitar desperdícios e degradação de nutrientes tanto do solo quanto do produto. Este tipo de cultura se utiliza das seguintes técnicas: conhecer o terreno, sua sucessão vegetal e composição litológica (tipo de solo, minerais e nutrientes presentes); saber como é o clima da região, tempo de chuva e seca, umidade do ar e incidência solar; identificar os indicadores, plantas, pragas e doenças que domam o cultivo objetivado, a fim de entender quais são as deficiências do solo; adubação orgânica com biofertilizantes, sem agentes químicos sintetizados em laboratório; quebra-ventos; preparo do solo (com nutrientes e defensores naturais); planejamento e análise do ciclo de vida.

SAF com 5 meses, antes uma área de pasto por 100 anos

Sistema Agroflorestal com 5 meses, antes uma área de pasto por 100 anos, no centro “O Despertar do Gigante” em Lorena/SP

Agrofloresta é a prática que une o crescimento florestal com produção e colheita em menor tempo, pois há o consorciamento entre espécies, havendo colheitas diversas em diferentes períodos, ajuda na retenção de matéria orgânica e da água proveniente de irrigação e chuvas. A prática já é utilizada para recuperação de áreas degradadas incluindo nascentes. O consórcio entre espécies vegetais ajuda no controle de pragas devido às diferentes populações que são mantidas, produzindo um modelo equilibrado parecido com os ecossistemas naturais, em que o controle populacional é feito naturalmente.

Por fim, deixamos o link da “Cartilha Agroecológica” desenvolvida pelo Instituto Giramundo Mutuando, das Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp Botucatu, que explica e instrui sobre cada um dos processos para práticas agroecológicas e conservação do solo. Acesse aqui.

 

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Escrito por Victor Molina e Larissa Macedo

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