Feira livre pode mudar sua vida e o mundo

Servindo melhor para servir sempre, desde o ano 500 A.C.

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Se você entrasse em uma máquina e voltasse no tempo até a Idade Média, ao menos uma coisa iria encontrar quase igual ao que existe hoje: a feira livre. A maior parte dos produtos seria diferente do que é hoje, claro, e certamente não ia ter um vendedor gritando: “Moça bonita não paga! Mas também não leva.” Mas o básico, isto é, barracas de frutas, verduras e produtos diversos, iria estar lá. E também o hábito da dúzia de treze: o feirante amigo sempre coloca um chorinho a mais na sacola, sinalizando que a feira é mais do que um local de simples compra e venda de mercadoria, lá a palavra é abundância.

Você pode pedir para experimentar, perguntar que dia a fruta vai estar no ponto, comprar metade verde/metade madura, calcular a quantidade ideal para três pessoas por quatro dias, pedir uma delas para hoje e contar que gosta bem docinha, trocar receitas. Tudo isso porque você não está falando com o intermediário, o carregador ou o caixa do supermercado; está conversando com o produtor. E haja conversa! O que eles mais querem é vender, óbvio, mas não hoje e nem agora, e sim para sempre. Então o objetivo é conquistar a freguesia, e não empurrar o máximo de mercadorias possível (com eventuais exceções). O que conta nessas horas é a eterna lei da reciprocidade: trate o seu feirante como gostaria que te tratassem, e troque sorrisos por gentilezas.

O sorriso de quem vende os produtos do próprio sítio. Na feira Eixãoagro em Brasília

A mistura é a graça da feira; tem vegetal de todo jeito e gente de tudo quanto é tipo. Na verdade, essa é a própria história do surgimento das feiras livres: pense que as pessoas viviam, basicamente, entre ‘os seus’, quer dizer, gregos com gregos e troianos com troianos. Desde 500 A.C. acontecia, de vez em quando, de chegar um navio cheio de mercadorias diferentes, de algum lugar distante, e automaticamente os comerciantes se reuniam na praça principal para vender ou trocar seus produtos. Mas a coisa se tornou comum, mesmo, no final do feudalismo, uns mil anos depois disso: lá por 500 D.C.

A feira livre surgiu junto com a cidade: até então a sociedade se organizava em feudos, e as pessoas só consumiam – e conheciam – o que se produzia na terra onde moravam. Com o surgimento do capitalismo, a moeda passou a ser usada para adquirir produtos, e naturalmente foram surgindo espaços de comercialização. Com as cruzadas, os produtos passaram a ser, digamos, globalizados – ainda que em menor escala. Então dá para imaginar que a reunião de produtores-vendedores e compradores era uma grande festa, onde se conversava, trocava informações e entrava em contato com histórias, músicas e toda uma cultura diferente. Idêntico ao que é hoje.

A gente vive falando da importância de comer comida de verdade, de desembalar menos e descascar mais. No Brasil 34% da população come fora e um a cada 5 está acima do peso. Melhorar a saúde e a qualidade de vida passa, sem dúvida, por mudar os hábitos alimentares. O supermercado é o templo da padronização da comida, que é apenas mais um dos vários produtos vendidos lá. O mamão papaia está embaladinho em plástico, cercado por uma malha de isopor e envolto em papel, perto do papel higiênico, do detergente, das vassouras. Enquanto que na feira o vendedor e o vegetal vivem, literalmente, no mesmo contexto: ambos saíram de manhã cedo do sítio, entraram no carro e chegaram naquela barraca perto da sua casa.

Deve ser por isso que as pessoas estão curtindo cada vez mais as feiras! E você, costuma bater perna entre as barracas com a sua sacola retornável?

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luciana

Luciana Sendyk escreve. Livros (autorais ou de terceiros), textos, anúncios, sites, blogs, peças de teatro, projetos diversos e, especialmente, aqui no PorQueNão?.Sanitarista de formação, ecossocialista por opção e vegana por ideologia, feminista e engajada, o que não falta é tema para redação. Acredita que escrever é um ato político e que atuar pode transformar o mundo.

 

 

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