O futuro que você quer já está no seu prato

Quando a gente escolhe o que comer desencadeamos todo um processo

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Eu dou uma oficina de comida vegetariana simples, boa, acessível, agrobiodiversa. Voltada para pessoas que estão pensando em adotar uma dieta vegetariana — sem nenhum tipo de carne nem derivados de animais — mas que têm dúvidas sobre o que comer; ou para quem já tem uma alimentação assim mas está naquela rotina entendiante (e nutricionalmente pobre) à base de pão e massa. Minha primeira dica é: pensa em QUANTA planta comestível existe no planeta, que a gente não come. Começa a incluir elas no dia a dia. E começa a pensar: a gente não come por quê? Porque, com tanta variedade de comida disponível, a gente tá acostumado a comer só meia dúzia de coisas?

O que a gente come é resultado de uma série de processos sociais, políticos, econômicos. Quem determina o que a gente come, hoje, são as indústrias e o mercado, com anuência dos governos — que não regulamentam, ou, pior, legislam a favor das indústrias, em detrimento dos consumidores (por exemplo, a lei que aprovou o fim da rotulagem de alimentos transgênicos).

 

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Quem dita o que a gente come é meia dúzia de multinacionais. Nosso alimento tá na mão desses caras aí. A gente come o que eles querem. Em qualquer lugar do mundo a gente encontra basicamente a mesma coisa nos supermercados: comida ultraprocessada, salgadinhos, refrigerantes, sucos de caixinha, achocolatados, embutidos, lácteos, muito produto com farinha de trigo refinada, gordura hidrogenada e açúcar.

O atual sistema de produção industrial de alimentos impõe “uma alimentação ocidentalizada, ‘viciada’ no consumo de carne, em produtos lácteos e bebidas com açúcar […] Somos dependentes de algumas poucas culturas, que estão nas mãos de um punhado de empresas que produzem em larga escala, sob condições de trabalho precárias, desmatando florestas, poluindo solos e águas e utilizando pesticidas sistematicamente” — diz Esther Vivas Esteves no livro O negócio da comida (Ed. Expressão Popular), em que relata os processos pelos quais nos tornamos reféns alimentares de uma cadeia que produz lucro em vez de comida e esvaziada dos principais agentes da agricultura: os camponeses.

O que a gente come é resultado de uma série de processos sociais, políticos e econômicos, mas quando a gente escolhe o que comer também estamos desencadeando processos. Pensar na cadeia de relações da comida até o nosso prato é pensar de maneira política. “Alimentação saudável é mais que ingestão de nutrientes. Diz respeito sim à saúde, mas também a meio ambiente, distribuição de renda, justiça social”, disse na III Feira da Reforma Agrária Patrícia Jaime, nutricionista da Faculdade de Saúde Pública da USP que participou da elaboração do Guia Alimentar para a População Brasileira de 2014 (uma publicação do Ministério da Saúde).

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Essa da esquerda é a dona Joana, agricultora. A da direita é a Ellen. A Ellen tá comendo um rico café-da-manhã típico aqui de casa (que envolve feijão, mandioca, abacate ;). Quando a Ellen começa a pensar na cadeia de relações que trouxe o alimento até o prato dela — de onde veio, quem plantou, como foi cultivado — ela tem a chance de desconstruir essa cadeia. E criar uma nova. Se ela escolhe a agrobiodiversidade no prato, no início da cadeia que trouxe o alimento até o prato dela está o pequeno produtor, o agricultor familiar, a agroecologia — e não o agronegócio e os agrotóxicos.

Precisamos buscar caminhos sociais para diminuir a distância entre a dona Joana e a Ellen. Como diz o professor da UnB Carlo Henrique Goretti Zanetti, “o agricultor familiar e consumidor estão ‘unidos’ pelas distâncias esvaziadoras do mercado”. Ou seja, entre a dona Joana e a Ellen existe a grande máquina capitalista que transforma tudo em mercadoria e afasta o cidadão da percepção da rede de relações e interconexões de tudo que é vivo (alguns desses caminhos de diminuição das distâncias estão sendo delineados através de feiras agroecológicas, CSAs — Comunidade que Sustenta a Agricultura, oportunidades de conhecer o produtor — veja outros exemplos aqui).

O que a gente precisa fazer é…

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Não deixe que as corporações da imagem ali em cima ditem o que você come. Ninguém precisa de ultraprocessados nem de um monte de industrializados pra ser feliz e saudável (muito pelo contrário). Mais do que não precisar, eu não quero que a Nestlé, por exemplo, seja a fornecedora do meu alimento. Prefiro que seja a dona Joana. Então… vou explorar a agrobiodiversidade brasileira e botar no meu prato uma variedade de comida nada ou pouquíssimo processada (arroz, feijão, tapioca, frutas e legumes da estação, mandioca, inhame, PANC etc), produzida localmente por pequenos produtores.

Sempre lembrando que nem todos têm oportunidade de escolher o que botar no prato. Alguns sequer tem comida ali. Quando buscamos um alimento produzido de maneira socialmente justa e ambientalmente sustentável fortalecemos as cadeias de relações que produzem e fornecem alimentos acessíveis a todos — e não apenas aos que têm mais recursos financeiros.

Pois comida não deveria ser mercadoria . “A função social da agricultura é produzir alimentos para toda a sociedade” disse João Pedro Stédile, do MST, também na III Feira da Reforma Agrária (que aconteceu em São Paulo, em maio deste ano). Por isso, o movimento propõe uma reforma agrária popular, para e atender as necessidades da população: alimento saudável e acessível a todos. Ele diz que o modelo do capital, o que chama de “agricultura capitalista”, não produz alimentos, e sim lucro. E, para produzir lucro, usa escala máxima, monocultivo, agrotóxico. “Não é um modelo que reproduz a vida. Não admite a diversidade. O modelo do agronegócio é um modelo sem vida: sequer tem camponês”.

Do outro lado do prato da mono-dieta está a monocultura. Do outro lado do prato da agrobiodiversidade está a agricultura familiar de base agroecológica. “Existe uma ligação profunda entre o agronegócio e os alimentos ultraprocessados”, diz Patrícia (alimento ultraprocessado na verdade é um não-alimento. Gregório Duvivier explica direitinho aqui, com direito a dor de barriga de tanto rir). Stédile conclui: “A reforma agrária popular é muito mais que lutar por terra: é lutar por soberania alimentar”.

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Patrícia Jaime na III Feira da Reforma Agrária ❤
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Assista o último vídeo da Ale Nahra sobre hortas em pequenos espaços:

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ale nahraEscrito e vivido pela colunista Ale Nahra.
Escrevo na Herbivora e no Medium, gosto de dançar, cozinhar, plantar, cuidar de bicho (inclusive gente). Estudo permacultura, agroecologia, agrofloresta e agricultura urbana. Tenho uma horta na laje de um sobrado em São Paulo, sou voluntária de proteção animal, danço forró, cozinho comida vegetariana e agrobiodiversa.

Siga a página oficial da Hebívora: facebook.com/aherbivora

Quer saber mais sobre como ter uma alimentação vegetariana boa, simples, acessível e agrobiodiversa — e de quebra começar o caminho para uma vida de mais autonomia e menos dependente de relações de consumo? Fala comigo e vamos agendar uma oficina.

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