O maior custo do prato feito pode ser a falta de qualidade (e reflete a alimentação da cidade)

A praticidade do prato feito pode diminuir a relação da população com a origem do alimento.

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Em São Paulo existe uma cultura alimentar quase invisível, já entremeada nos cardápios de restaurantes, no cotidiano pulsante da cidade e no hábito dos paulistanos há muito tempo. Essa cultura, aos olhos desatentos, facilmente passa despercebida. Já parou para olhar os cardápios dos tradicionais PFs da cidade?

Segunda: Virado à Paulista,

Terça: Dobradinha,

Quarta: Feijoada,

Quinta: Macarrão com Almôndegas,

Sexta: Peixe.

É só carne.  E é só produto de péssima qualidade. Precisa ser assim?

O quão necessário é o consumo diário de carne e produtos derivados de animais para uma alimentação verdadeiramente saudável? Essa demanda surrealmente imensa sacrifica o que considero ser primordial para qualquer tipo de alimento: qualidade e ética. Não é possível fornecer carne de qualidade para todo mundo todo dia. Isso é um fato, não é a maneira que a natureza funciona. Ao invés de respeitarmos o ciclo natural das coisas, nosso egoísmo interferiu e bombou tudo de hormônio, ração cheia de transgênicos e várias doses de antibióticos. Só para termos o deleite de comer carne quando bem entendemos. Isso é de uma burrice tremenda. A carne é nobre. É uma matéria-prima linda, única, que se tratada com respeito traz resultados inacreditáveis.

Portanto, entendo a maneira atual de consumo desse produto como sendo em vão, já que, devido à sua má qualidade (má qualidade essa que só existe porque interferimos na natureza), não se consegue alcançar um excelente resultado, acabando por produzir algo meramente medíocre. E o medíocre é inaceitável – ou pelo menos deveria ser. Aquele bife de alcatra do PF, fininho, duro, seco, cansado, que mais parece uma prancheta: você precisa dele? Não. Mais vale esperar até o fim de semana, ir a um excelente açougue e comprar um naco lindão de carne e fazer pra você e quem você ama.

Escrevo esse texto fazendo justamente isso. Ontem comprei um belíssimo contra-filé de gado alimentado estritamente a grama, criado solto no pasto. Ele está sendo cozido à vácuo em temperatura controlada para chegar no ponto interno que eu gosto. Depois, à noite, é só finalizar na panela bem quente para criar a crosta externa e comer harmonizando com um grande vinhão.

Isso é consumir carne corretamente.

Respeitar o animal, valorizar ao máximo a matéria prima, entender o ingrediente. É barato? Não. Preciso comer todo dia? Não, também. Quando tenho a oportunidade, me presenteio. Nos demais dias, prefiro não consumir produtos de qualidade duvidosa a sustentar uma indústria maléfica e cancerígena. Passo muito bem com minhas massas, legumes e vegetais, obrigado.

O paulistano precisa entender que ele será mais saudável se não comer carne todo dia. Antes disso, porém, precisa aprender a comer. Uma vez que isso acontecer, aumentar a qualidade da matéria prima fica muito mais fácil e passa a ser um caminho natural. Eu só quero morar num lugar em que todo frango seja criado solto comendo minhoca e não demore três dias pra chegar no “tamanho de abate”, que os bois fiquem lá tranquilões no pasto, os porcos felizes procurando comida no mato e que os peixes sejam pescados na linha. Parece muito mais natural e faz muito mais sentido. Mas talvez eu seja um grande sonhador.

Até lá, continuarei comendo um infinito leque de plantas e, de vez em quando, fazendo algo bastante especial que é comer carne boa.

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Assista o vídeo sobre como o nosso prato muda o mundo:

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(*) Carlos Eduardo Gasparini.

Cozinheiro em São Paulo vindo de São Bernardo. Gosto de rock sujo, Jerez e Dirty Martini. Meu momento ideal é sentar numa cadeira do lado de fora e observar a vista do meu sítio com um copo de algo bom na mão, enquanto escuto os estalos do forno a lenha recém aceso e penso no que vou jantar. O segredo da vida são os detalhes.

 

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