Milhares de pessoas se reúnem para construir cidades “lixo zero” durante Congresso Internacional

PLANETA TERRA LIXO ZERO: COMO TORNAR ESSE SONHO REALIDADE?

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Lixo sempre foi um palavra que eu usei para descrever algo ruim. Ou coisas que eu jogo fora mesmo. Mas pesquisando no Google a primeira definição que apareceu foi: lixo é tudo aquilo que já não tem utilidade e é jogado fora.

Mas o que o Google não responde é: Como a gente se tornou essa sociedade que tem tanta coisa pra jogar fora? E: fora onde? Tem como jogar o lixo para fora do planeta?

Fiquei pensando nisso porque estive no Congresso Internacional Cidades Lixo Zero, que aconteceu entre 5 e 7/6/2018 em Brasília. Assim que cheguei no credenciamento, recebi um copo reutilizável com o aviso de que eu deveria carregá-lo comigo todos os dias porque não há copos descartáveis no evento (quem dera se fosse assim em todos os lugares!).

O debate sobre lixo hoje em dia é mais que essencial, é urgente. O lixo é um problema climático global, mas a solução é local e adaptável. Muitos dos palestrantes bateram na tecla de que precisamos imitar mais a natureza. Aliás, não existe ‘jogar fora’ no mundo natural, tanto que uma das melhores frases que eu ouvi foi “lixo é um erro humano”.

Tanto isso é verdade que 4% do lixo no mundo é canudinho, ou seja, um objeto perfeitamente dispensável. As pessoas ingeriam líquidos milhões de anos antes de inventarem os plásticos, e os canudos virarem uma “necessidade”. Um estudo recente da Science diz que desde 1950 já produzimos 8,3 bilhões de toneladas de plásticos no mundo, sendo que 60% disso virou lixo (foi parar em aterros, lixões, espalhados pelo mar ou pelas matas).

Outro fato que ouvi no Congresso e me deixou chocada foi que, no Brasil, mais da metade do lixo (quase 60%) vai pro aterro sanitário, que é um dos piores destinos finais de resíduos.

Veja só como separar corretamente seu lixo de casa feito pela Rastro:

Foram três dias de congresso ouvindo especialistas do mundo inteiro, e percebi que existem 3 fatores chaves que podem diminuir o impacto do lixo no meio ambiente:

1. Consumo consciente: precisamos repensar o lixo desde a fabricação. Alguns países já decidiram cortar o mal pela raíz diminuindo o consumo, uma ação que se mostra mais eficaz do que ficar arranjando lugar para descarte correto. São Francisco (EUA), por exemplo, baniu a sacolinha plástica, o isopor e a garrafa pet desde 2006. Ruanda, Itália, Cidade do México, Índia, China, Bangladesh, Irlanda, Austrália, África do Sul e Washington também proibiram ou taxaram esses objetos usados apenas uma vez.

2. Campanhas e coleta porta a porta: você sabia que 90% do que vai pro aterro é reciclável ou compostável? Então por que vai parar ali?

Pensando nisso, alguns países têm focado em campanhas e coletas porta a porta. Os caminhões passam de casa em casa, mais ou menos como funciona hoje no Brasil, mas a diferença é que em alguns países há uma tarifa que varia de acordo com a quantidade de lixo gerada em cada casa. O modelo italiano, por exemplo, tem toda uma tecnologia de identificação e pesagem do resíduo no momento da coleta pra informar o cidadão da dimensão do seu descarte. Essa taxa do lixo estimula as pessoas a reduzirem seu lixo mexendo em seus bolsos, e com isso a compostagem se torna uma alternativa prática e eficiente.

O resíduo orgânico, que são as sobras de alimentos in natura, também pode ter um destino melhor do que o lixão. Normalmente, em qualquer lugar do mundo, o resíduo orgânico equivale a 50% do total de resíduos domésticos, então transformar esse lixo em adubo é mais que inteligente, é o processo natural voltando à tona. Se todo mundo compostasse, metade do lixo no mundo estaria resolvido.

Saiba mais sobre compostagem nesse vídeo feito direto do congresso:

No Brasil, a solução deveria passar pela informação de que 90% dos resíduos recicláveis são coletados por catadores, pessoas que encontram seu sustento no sistema de reciclagem, segundo a organização Pimp My Carroça.

3. Educação: a maioria dos palestrantes falou de educação. Também houve a participação de crianças e adolescentes, brasileiros e estrangeiros, que contaram como a separação do lixo já faz parte de suas vidas. Duas crianças brasileiras contaram que quando um colega de sala faz aniversário, elas usam os recicláveis para produzir brinquedos artesanais e dar de presente, uma fofura só!

O interessante é que todos que falaram sobre educação ressaltaram a importância da escola implementar programa de redução de lixo entre todas as pessoas que convivem no entorno, e não apenas pedir que as crianças façam um trabalho escolar sobre o assunto. O que realmente faz a diferença é que todos da escola incorporem atitudes lixo zero.

Além desses três fatores, tem mais um que eu não posso deixar de fora, que é a alimentação. A Tainá Zanetti do movimento Slow Food começou sua fala assim: “a fome não é um problema de produção, e sim político, de distribuição e acesso”.

Estamos vivendo em um momento em que o grande debate sobre a fome é: como produzir mais usando menores espaços de terra? Porém, 1/3 do alimento produzido no mundo é desperdiçado, e essa é a questão principal. Eu costumo dizer que quanto mais lixo geramos com embalagens, mais lixo estamos ingerindo. Um caminho para resolver isso é aquela máxima: “Desembale menos e descasque mais!” – assim, a casca da sua comida pode virar comida de novo <3

O principal objetivo do Congresso foi conscientizar e informar sobre como não produzir mais lixo, fornecendo exemplos concretos. O termo ‘lixo zero’ é usado como meta:

Ética: cada território assume sua responsabilidade e autonomia

Econômica: a gente gasta dinheiro com lixo quando na verdade poderíamos estar gerando emprego e movendo a economia

Visionária: mudar de um sistema pro outro

Eficiência: “veremos a eficiência de nossos atos pela redução de consumo de lixo” disse o presidente do instituto lixo zero, Rodrigo Sabatini

Saí do Congresso pensando em como fazer a nossa parte. Além da compostagem, da redução do consumo em geral e de embalagens em particular, da conscientização das pessoas sobre a importância de reduzir o lixo (que é o nosso trabalho cotidiano, aqui no PorQueNão?), também é preciso pressionar governo e empresas para que participem das soluções para o problema. Com o perdão do trocadilho, tá na hora de parar de varrer o lixo para baixo do tapete!

E você, já pensou em como a gente pode parar de transformar nosso mundo em uma lixeira gigante?

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viviane Noda(*) Viviane Noda é empreendedora social, comunicadora e cofundadora dessa mídia interdependente. 

Formada em administração com ênfase em marketing pela ESPM e especializada em Negócios Sociais pela ideologia Yunus, ela acredita que divulgar bons exemplos seja o respiro necessário para dar fôlego na caminhada de um futuro melhor.

Além de escrever, editar, filmar e coordenar, também dá consultoria de comunicação.

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