“Mudita”, quero ficar feliz com a felicidade dos outros

Se a gente tem o poder de mudança, que seja para a felicidade!

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Ah, os pedacinhos. A gente vive em retalhos. Uns têm o que nos falta. E nós temos o que tantos querem. Já me perguntei sobre a justiça disso. Por que somos tão incompletos ? E ainda, por que, aos nossos olhos, alguns são tão completos ?

Já tive daquelas amigas perfeitas. Daquelas que parecem ter tudo, parecem conseguir tudo de primeira. Passaram no melhor vestibular, são amadas pela família, tiraram carteira e ganharam carro, o namorado nunca traiu, o chefe sempre foi legal. Eu tinha uma amiga assim. Hoje não tenho mais. Não é porque tenhamos brigado. É porque eu descobri que ela não era assim. Ela era apenas mais discreta com os problemas e de alguma forma, me passava a impressão de ser perfeita, quando na verdade lutava contra questões que, agora vendo com certa distância, me parecem bem mais graves que os meus problemas.

É difícil falar em ser feliz sem parecer um alienado. Não dá pra ser feliz o tempo todo não. Sabemos disso. Lemos jornais e lemos livros. Dá pra sentir quase uma campanha pela infelicidade. Por isso concordamos, se você está infeliz, certamente tem muitos motivos para isso. Mas vamos lá !

Aprendi que a gente pode ficar feliz pela felicidade dos outros porque ver as pessoas numa pior é imensamente doloroso pra todo mundo, logo o contrário também faz sentido. Significa que você tem que ficar feliz pela felicidade de um bandido? Lá vem! Migos, felicidade de malandro é aprender por malandragem que não vale a pena ser malandro. Tá me acompanhando?

Tenho outra amiga, outra dessas perfeitas-imperfeitas! Luiza Voll. Dia desses Luiza foi numa palestra e me publica no stories que descobriu a palavra Mudita. Ai, que palavra silenciosa!

Luiza explica: Mudita é uma palavra linda. Diz respeito exatamente ao poder de ficar feliz com a felicidade do outro.

Mudita é aquilo que te faz compartilhar o trabalho do outro, ainda que o seu esteja indo mal. Mudita é a força que te leva a ficar feliz pela gravidez da sua irmã, mesmo que você não possa ter filhos (quem já viu Julie & Julia?). Mudita também pode ser o que te impulsiona a cuidar das crianças dos outros durante uma tragédia, ainda que você tenha perdido sua família (quem já viu The Impossible?).

Vou te contar um caso leve que posso expor: eu tentei passar na OAB duas vezes. Na primeira, estava no nono período e não passei nem na primeira fase. Como eu não tinha contado pra quase ninguém, sofri menos. Acho que uma das razões de sofrimento é a cobrança alheia (sabem bem as grávidas em início de gestação). Vida que segue, fui tentar de novo, desta vez no décimo período do curso. Nem tinha mais como esconder pois era o esperado por todo mundo. Me programei bem. Estudei muito. Terminei três canetas de tanto fazer rascunho. Estudei todos os dias! Fiz cursinho. Passei mal no cursinho com o calor da sala. Mas fiz a primeira etapa e yey!

Fui pra próxima! Fiz a segunda etapa e poin. Fiquei de fora. Aquilo doeu, viu?!

Sabe o discurso do “se você se esforçar, você vai conseguir”? Ele tinha perdido o sentido pra mim. E aí, eu poderia ainda ter vivido duas dores: a dor do meu fracasso e a dor do sucesso dos meus colegas. Mas decidi que o sucesso deles não seria uma dor (ai como eu tô autoajuda hoje!), seria uma alegria, um estímulo. Se eles conseguem, eu também conseguiria uma hora. E se não conseguisse nunca, pelo menos teria pra quem pedir dinheiro, haha ! Ok, mudita não diz respeito ao interesse.

Pule essa parte.

Aconteceu no corredor do meu estágio. Esbarrei com um colega e ele me contou todo feliz “Didi, passei na OAB!”, segurei o pensamento reacionário e o abracei com sinceridade. Ele também tinha se esforçado ! Ele também tinha sonhos de ajudar muita gente com aquela profissão! Depois daquele teste, fui só alegria com todo mundo que passava. E ânimo com quem reprovava também. Sentei na cadeira, fiz um recurso pra minha prova. Eles tinham esquecido de corrigir uma questão.

Saiu o resultado do recurso e adivinha quem passou? O mais incrível é que a amiga que me ligou para dar a boa notícia não tinha passado daquela vez, mas estava chorando de emoção no telefone enquanto me parabenizava. Na prova seguinte, ela passou e hoje é a melhor advogada do mundo!

Mudita vai muito além de uma conquista profissional. Leva a gente a entender que fazemos parte de um todo. Que estamos
em pedacinhos e em comunidade para nos conectarmos, nos completarmos e compartilharmos nossas alegrias. Acontece que a gente meio que aprendeu ao contrário e só trocamos tristezas. É importante a solidariedade também. Mas vale recarregarmos com o que tem de bom e bonito acontecendo (ainda que não seja diretamente com a gente).

Minha vida sentimental é uma lástima, mas eu tenho sobrinhos lindos pra me darem essa alegria de ver que pra alguém funcionou. E eu chamo de sobrinhos os filhos dos amigos mesmo! Tô nem aí! Quero ver casamentos felizes, famílias doriana, casas com jardim e uma horta cheia de comidinha orgânica.

Por falar em jardim e horta, a grama do vizinho pode ser mais verde mesmo e tá tudo bem! Sinal que tá na hora de bater um papo com o vizinho. Ficar mais chegado dele, parabenizar pela grama e talvez aprender a técnica. Vamos muditar esse mundinho!

PS: Inventei esse verbo: muditar. Fique feliz por mim.

“E se ainda quereis dilatar mais a vida, une à alegria vossa a alegria do semelhante. Une vosso esforço ao de outros e sentireis, assim, que vossa vida adquire mais corpo, porque o que os demais sentem, por reflexo o sentireis também vós. É como se todas as vidas constituíssem uma só, gigantesca. Se por vossa conta, por exemplo, desfrutais de dez episódios, nesta outra forma podereis desfrutar de cem, de mil, de inumeráveis acontecimentos; porque cada alegria, cada benefício que alcance vosso semelhante será vosso e desfrutareis dele. E, sendo assim, a existência adquirirá outro significado.” da Logosofia

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IMG_6832(*) Diorela Kelles cresceu numa grande cidade, Belo Horizonte. Lá ela aprendeu a ser comunicóloga e advogada. Mas foi numa cidade pequena, para onde se mudou aos 30 anos, que ela aprendeu mais sobre a vida em comunidade, e a importância de cuidar dos ciclos dos quais todos fazemos parte. Hoje ela escreve para unir tudo que aprendeu, tentando espalhar boas ideias e criar correntes de ações. www.escrevo.me

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