PAINEL DE ALIMENTAÇÃO SUSTENTÁVEL FOI NUTRITIVO, SABOROSO – E PROVOCADOR

UM DOS EVENTOS MARCANTES DO FESTIVAL SETOR CULTURAL SUL MOSTROU QUE LUGAR DE MULHER É ALIMENTANDO O MUNDO

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Dizem que comida gostosa não enjoa. E o painel de alimentação sustentável que aconteceu no sábado de manhã, do lado de fora do SESC, provou essa máxima: apesar de conhecer de cor e salteado o tema, a discussão trouxe reflexões novas e surpreendentes. As conversas foram tão apetitosas que eu – e todo mundo que estava lá – saboreei cada bocado.

Sabe quando você troca os ingredientes e o prato acaba ficando ainda melhor? Então. O evento acabou virando uma mesa sobre feminismo. A começar pelas participantes, todas mulheres. Até mesmo a Central do Cerrado, que havia confirmado a presença do Luis Carrazza, acabou sendo representada pela Ildete Sousa. Não sei se o Luis tinha outro compromisso na agenda ou apenas foi cavalheiro e cedeu a sua vez a uma mulher, mas foi muito rico ter a presença de uma pessoa que  tem a produção de alimento inserida no cotidiano, como forma de vida. Inclusive ela trouxe um pacote de castanhas de Pequi para o público conhecer o produto e só posso dizer o seguinte: experimente. Além de ser uma delícia, é nutritivo em todos os sentidos do termo. Acalmou a fome e alegrou o coração. Até porque a gente ouviu uma história linda da Ana Paula Boquadi, que contou que estava no Xingu participando de um estudo sobre extrativismo sustentável e que lá as colhedeiras cantam para as árvores, para que as castanhas nasçam felizes <3 <3 <3

Vai me dizer que comer isso não tem uma energia especial? O tema do painel pode ser resumido a partir desta imagem de cantar para as castanhas: como você alimenta o mundo e como o mundo alimenta você?

A Ana Paula foi a primeira a falar, pois ela precisava sair mais cedo para, justamente, cozinhar. O prato do dia do Buriti Zen (shitake gratinado) dependia da chef chegar na hora e, diga-se de passagem, a gente almoçou lá e pode atestar que estava simplesmente maravilhoso – daqueles que ninguém acredita que não leva nenhum ingrediente de origem animal e nós, vegetarianos estritos, damos aquele sorrisinho de canto de boca, ‘tá vendo?’. O Buriti Zen é o ponto de encontro da alimentação saudável em Brasília. Só quem não entra lá é o glúten: a Ana explicou que a alergia ao glúten é, na verdade, alergia ao agrotóxico glifosato. E que as farinhas atuais são resultado de uma seleção que produz farinha com o máximo de glúten, propositalmente, para ficar viciante ao máximo.

O glúten também apareceu no nosso painel na fala seguinte, da Tainá Zaneti, representante do Movimento Slow Food no convívio Cerrado. Ela brincou que o ingrediente, vilão da alimentação desses últimos tempos, vai receber uma carta do ovo dizendo “calma, isso vai passar, aguenta aí que a lactose já tá chegando!” A Tainá lembrou que a cacofonia alimentar, que elege mocinhos e bandidos, alimentos milagrosos e perigosos, mostra como é importante reconhecer quem está enriquecendo com o alimento que a gente come.

A Renata Navega, da Rede CSA Brasília, falou sobre o desafio de trazer o visível para o invisível e trouxe para a mesa o conceito de violência sutil, aquela que a gente pratica todo dia porque ‘é o normal’ e que atinge o mundo e a nós mesmos. Muita gente, mulheres na imensa maioria, já foi para a fogueira por enxergar o invisível. Mas, no prato nosso de cada dia, há mais do que comida: tem também reflexão, afeto, memórias, experiências. Até sobre um prosaico cafezinho pairam perguntas: de onde veio o grão de café, quem é a pessoa que plantou? Quem preparou a bebida? Quem está servindo? E quem está tomando esse café?

A vida de quem produz alimentos foi justamente o tema da fala seguinte, da Ildete. Ela trouxe a experiência de quebradeira de coco no Maranhão, uma das cooperativas que integram a Central do Cerrado, onde ela trabalha hoje. Ela cresceu em um meio em que as mulheres viviam limitadas apenas aos cuidados domésticos, e viu como a inserção no processo extrativista sustentável mudou suas vidas, empoderando e oferecendo escolhas e ferramentas de enfrentamento por igualdade. Essa realidade, que cabe numa só frase, é na verdade do tamanho do mundo e, talvez, a fala mais importante de todo o festival. É aquele temperinho que faz toda a diferença; a fala da Ildete mostrou como, na prática, uma atitude de cooperação pode mudar a vida de toda uma comunidade.

O painel de alimentação sustentável foi mediado pela Bruna de Oliveira, do PorQueNão?, que é especialista em Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC). Todo mundo que estava lá saiu alimentado, com a alma repleta de novas reflexões e o coração acalentado pelas histórias das palestrantes. Afinal, quem alimenta o mundo se não as mulheres, responsáveis pelo primeiro e melhor alimento que todos nós recebemos?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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luciana

Luciana Sendyk escreve. Livros (autorais ou de terceiros), textos, anúncios, sites, blogs, peças de teatro, projetos diversos e, especialmente, aqui no PorQueNão?.Sanitarista de formação, ecossocialista por opção e vegana por ideologia, feminista e engajada, o que não falta é tema para redação. Acredita que escrever é um ato político e que atuar pode transformar o mundo.

 

 

 

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