A reinvenção da moda já está acontecendo! Conheça o Fashion Revolution.

Fashion Revolution coloca a transparência na moda!

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Este texto começa de uma forma mais abrupta do que a maioria dos belos textos sobre moda. Foi o melhor jeito que encontramos. Mas prometemos que ao longo do texto haverá uma melhora nas notícias que vamos contando.

Há cinco anos o edifício Rana Plaza, em Bangladesh, entrava para uma das piores listas em que ele poderia figurar. Na lista das maiores tragédias do mundo, ele ficou em quinto lugar entre os piores colapsos estruturais que já aconteceram.
Era uma tragédia anunciada. O edifício estava em péssimas condições, as pessoas que trabalhavam lá dentro tinham medo e pediam por mudanças. Nada foi feito. 24 de abril de 2013 foi o dia em que parte do edifício desabou, matando 1134 pessoas e deixando mais de 2500 feridos.

Você queria ler um texto que falava de moda e se deparou com o isso. O que tem a ver? Essas pessoas eram a mão de obra do que chamamos facções para produção de roupa para grandes marcas, principalmente para o fast fashion (não vamos citar os nomes aqui, mas você pode imaginar, por favor).

O PREÇO ALTO DA REDUÇÃO DE CUSTO

Essas facções tinham como grande princípio a redução máxima do preço. Só assim para a gente conseguir comprar uma blusinha que sai da Ásia e chega numa loja do Brasil por 10 ou 20 reais. Esta mesma blusa, no outro continente, custa centavos. A mão de obra que a fez não tinha dinheiro para comer ou para voltar pra casa. Deixou a filha com os pais em outra cidade e não a vê há meses. Esta é uma história que se repete e se multiplica em diversas indústrias – e na indústria da moda causa um grande impacto.

O edifício Rana Plaza era grande e barato. Lugar ideal para amontoar um tanto de gente que trabalha por um custo menor que a manutenção de um robô. A vida deles, para seus responsáveis (palavra forte se pensar no significado de responsabilidade) não tinha tanta importância. Quando o combate é pelo menor preço, todo o resto vira prostituição.

Foi assim que, mesmo com todo o risco de trabalhar naquele local, ele se manteve, até tudo ruir. A grande indústria que contratava das facções o trabalho quase escravo de costura negou sua responsabilidade (de novo a palavra) naquela cadeia. As vozes sufocadas pelo concreto desarmado não soaram muito tempo nos noticiários e o choro daquela menininha que perdeu a mãe não foi ouvido nos corredores do shopping, por onde passeamos para encontrarmos a roupa mais BBB (boa, bonita e barata) possível para usar no fim de semana. Afinal, nós também não estamos esbanjando dinheiro deste lado do planeta.

 

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A REVOLUÇÃO

De tristeza surgiu uma pontinha de revolução. Em Londres (a pátria da revolução industrial), as pessoas começaram a se questionar sobre produção fashion. Tudo estava tão acessível, barato e em enormes quantidades que os ingleses começaram a cruzar os pontos e ver a responsabilidade dos agentes que até então negavam responsabilidade sobre o acidente ocorrido. Responsabilidade essa que passava por toda a cadeia produtiva e chegava até nós, os consumidores.

Foi assim que surgiu o movimento Fashion Revolution. Os britânicos começaram a se perguntar sobre quem fabricava suas roupas. #whomademyclothes era a hashtag do momento. E os olhos das pessoas passaram a se voltar com mais atenção para o drama que todos patrocinamos cada vez que compramos um produto sem o cuidado de entendermos como foi feito. Notadamente para a indústria da moda, isso ficou bem flagrante.

1134 mortos, 2500 feriado. Não poderia passar impune.

O movimento criou o Fashion Revolution Day e escolheu o dia 24 de abril como data principal para questionar a indústria fashion. Mas não só. Todos os consumidores eram convidados a pensar melhor suas ações e questionar suas marcas preferidas sobre o processo usado para fabricar qualquer peça. E isso incluía desde o descaso com os trabalhadores das facções até os danos ao meio ambiente também. A transparência na cadeia de produção passou a ser exigida.

Em 2018, o movimento Fashion Revolution adota o tema “Cinco anos após o Rana Plaza”. A transparência não poderia estar mais na moda. Além de vender muito tule, as empresas se vêem obrigadas a lidar com a transparência de seus atos: passaram a responder aos questionamentos de seus consumidores em redes sociais e e-mails, assumir compromissos, enviar relatórios, assinar ajustes de condutas (que precisam ser bem fiscalizados).

CINCO ANOS APÓS O RANA PLAZA

Nesses cinco anos de campanha, os avanços foram notáveis:

Em 2017, 2,5 milhões de pessoas se envolveram com o movimento, e mais de 100 mil pessoas questionaram nas redes sociais #whomademyclothes;
2.416 marcas responderam à hashtag e compartilharam informações sobre a sua cadeia produtiva. Mais de 150 grandes marcas informaram onde são feitas suas roupas;
Mais de 3.600 profissionais responderam #imadeyourclothes através de postagens;
Mais de 1.300 fábricas foram inspecionadas em Bangladesh desde a tragédia do Rana Plaza;
O governo de Bangladesh aumentou em 77% o salário mínimo da área – agora são $68 por mês (pois é, ainda temos que entender muito de economia para conseguirmos explicar por que o trabalho de umas pessoas vale tão pouco em umas partes do mundo e tanto em outras);
Mais de 70 marcas se comprometeram a participar da campanha Detox do Greenpeace, que consiste em eliminar os produtos químicos prejudiciais das cadeias de produção da moda (porque ainda tem essa questão também). Juntas, essas marcas representam 15% da produção têxtil global.

Dados do movimento no Brasil:


Em 2017, 225 eventos aconteceram em 37 cidades durante a Semana Fashion Revolution;
150 atividades aconteceram em 50 faculdades, com a participação de 31 estudantes embaixadores;
O Brasil foi o país com o maior uso da hashtag #fashionrevolution, com 19% das menções mundiais, totalizando 4.884;
Em 2018 será elaborada a primeira edição brasileira do Índice de Transparência da Moda, para analisar em que medida 20 grandes marcas estão divulgando publicamente informações de sua cadeia produtiva, em prol de uma maior prestação de contas.

Semana Fashion Revolution 2018 – em São Paulo

Em São Paulo, o evento principal acontecerá na Unibes Cultural, no dia 28 de abril, e contará com debates e mesas redondas sobre diversos assuntos, como a questão do trabalho escravo na moda, a representatividade da força de trabalho feminina e a transparência na indústria da moda.

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Para a discussão deste último tema, será realizada a mesa “Vamos falar sobre transparência: Índice de Transparência da Moda no Brasil”, com o objetivo de conscientizar sobre a crescente importância de práticas mais transparentes no mercado da moda, e apresentar o projeto brasileiro do Índice, que será lançado oficialmente em outubro deste ano.
Outra novidade deste ano será a 1ª edição do Fashion Revolution Forum, um projeto criado para fomentar a pesquisa sobre o desenvolvimento sustentável na cadeia produtiva de moda, por meio da apresentação de trabalhos acadêmicos, seguidos por sessões de debates.
Oficinas práticas acontecerão durante o dia todo, incentivando os participantes a fazer suas roupas e a estar mais perto de processos naturais e manuais, como o tingimento natural, tricô, crochê, entre outros. O evento também contará com a exposição “Quem fez minhas roupas?”, de looks com diferenciais sustentáveis; a exibição do documentário canadense “River Blue (2016)”, e opções de alimentação vegana.
Outros parceiros do movimento vão realizar ações durante a semana, como a Comissão de Direito da Moda da OAB-SP, o IED – Istituto Europeo di Design, as lojas multimarcas Goiaba Urbana e Damn Project, a marca Insecta Shoes e a Casa Jardim Secreto.
Serviço:Semana Fashion Revolution 2018 SP (23 a 29 de abril de 2018)
Evento principal: dia 28 de abril
Horário: 11h às 20h
Local: Unibes Cultural (Rua Oscar Freire, 2500)
Programação: No evento no Facebook e mais informações na página do Fashion Revolution Brasil

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Fashion Revolution 2018 no Vale do Aço em Minas Gerais

A vontade de mudar a forma de produzir e o jeito de consumir chegou também ao interior de Minas Gerais. Patrícia Barbosa, advogada e costureira, especializada em Fashion Law, levou o Fashion Revolution para a região do Vale do Aço. Vinda de uma experiência no exterior, depois de criar sua própria marca de roupas (By My Hands), Patrícia passou a se interessar pelo movimento e pela justiça neste universo. É ela quem reúne os interessados e preside o movimento na região desde 2017.

Na programação deste ano, o Fashion Revolution Vale do Aço começa dia 23 de abril com escambo de guarda-roupas itinerante, dia 24 de abril faz visita em escolas para debater o movimento e realizar oficina de customização infantil. Dia 25, promove um desfile revolucionário. Dia 26, realiza o debate de Direito da Moda e dia 27 de abril apresenta uma mostra de documentários.
O movimento também realiza a coleta de jeans usados para a realização de Upcycling e a promoção do debate sobre o ciclo da água e a produção jeans.

O Fashion Revolution também terá edições nas cidades do Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, São José do Rio Preto, Blumenau, Goiânia, Fortaleza, Pindamonhangaba, Natal, Florianópolis, Balneário Camboriú, Uberlândia, Catanduva, Presidente Prudente, Campina Grande, Recife, Porto Alegre, Salvador, Taubaté. Mais informações na página @fashionrevolution.brasil (facebook).

COMO FAZER PARA SER REVOLUCIONÁRIO FASHION ?

Você pode perguntar para as marcas que usa como foram feitas suas roupas e por quem.
Algumas ideias que podem ser revolucionárias, criar um impacto menor e não alimentar o ciclo de más condutas que já feriu tanta gente:

  • Dar preferência para profissionais de costura locais, que você conheça;
  • Trocas de roupas entre amigxs;
  • bazares;
  • brechós;
  • customizações;
  • reparos.

Participar da revolução fashion pode ser divertido e mais elegante do que qualquer roupa nova!

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IMG_6832(*) Diorela Kelles cresceu numa grande cidade, Belo Horizonte. Lá ela aprendeu a ser comunicóloga e advogada. Mas foi numa cidade pequena, para onde se mudou aos 30 anos, que ela aprendeu mais sobre a vida em comunidade, e a importância de cuidar dos ciclos dos quais todos fazemos parte. Hoje ela escreve para unir tudo que aprendeu, tentando espalhar boas ideias e criar correntes de ações. www.escrevo.me

 

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Lembrando que a missão do PorQueNão? é divulgar conteúdos riquíssimos como esse. A gente acredita que a transformação vem através de bons exemplos, e para continuar trabalhando com um time incrível mais os equipamentos e deslocamentos necessários, contamos com você. Conheça a nossa campanha de financiamento (https://apoia.se/porquenao)

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