Respeito à diversidade: casa abriga LGBTIs expulsos pela família

Voluntários se unem para enfrentar o preconceito e construir uma atmosfera de carinho e transformar a realidade

Muitos de nós andam sentindo um desconforto enorme e quase inexplicável. Diversas vezes, a explicação para esse incômodo está mais próxima do que parece: por nos sentirmos forçados a nos adequar aos padrões que a cultura dominante impõe, vamos esquecendo e suprimindo nossas singularidades para nos adequar, pertencer e sustentar o sistema que fomos criando enquanto sociedade, esse organismo coletivo composto por cada indivíduo humano.   

Por mais leve e agradável que o nosso estilo de vida tenha se tornado após anos de descobertas e inovações, estamos no momento em que despertamos a consciência sobre como o coletivo tem tratado as individualidades ao longo dos séculos. Assim, falar de diversidade de pensamento, gostos, etnias e formas de viver em geral tem se tornado não só necessário como também urgente.  

Diferentemente de nós, a Mãe Natureza não ignora a riqueza que a diversidade traz: existe uma inteligência única e essencial morando em cada organismo – seja ele humano ou não-humano – que compõe os ecossistemas dos quais fazemos parte. Voltando para a humanidade, mais do que bandeiras para promoção pessoal e ações de marketing para sustentar a parafernália capitalista, falar de diversidade e aceitação é uma questão de vida ou morte para muitos grupos sociais que vivem à margem do conforto de que muito poucos estão gozando.

No caso de quem se identifica como LGBTI (sigla para lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, travestis e intersexuais) a realidade do preconceito afeta não só a própria pessoa em questão, que deixa de viver plenamente por precisar estar camuflada o tempo inteiro para não ser discriminada, atacada ou até morta. Afeta também familiares – em especial as mães: por vivermos sob uma cultura machista e patriarcal (em que o homem é considerado dono da casa, da mulher e dos filhos), normalmente a mãe é quem se recebe a “culpa” pelo filho ou filha ser como é.

Conheci essa realidade por ter não só amigos, como também membros da minha família que passaram pelo trauma da discriminação dentro da própria casa. Assim, fico comovida e esperançosa quando conheço pessoas engajadas, ativas e incomodadas o suficiente para tomar uma atitude frente à realidade.

Foi o que aconteceu ao conhecer o Iran Giusti em um debate sobre a relação entre LGBTIs e suas famílias em dezembro de 2016. Junto à Maju Giorgi, líder do movimento Mães Pela Diversidade, ele apresentou fatos pavorosos que acontecem com pessoas de todas as classes sociais, que vão da expulsão de casa, passando por agressões físicas e psicológicas.

O Iran contou que resolveu transformar o seu incômodo em ação. Ele que, volta e meia, já acabava cedendo o sofá da sua própria casa para pessoas que foram expulsas pela família ao assumirem a sua condição, resolveu usar seu conhecimento em comunicação para fazer um financiamento coletivo. Rapidamente, muitas pessoas se juntaram para apoiar o projeto financeiramente e, no dia 25 de janeiro, ele conseguiu abrir as portas da Casa 1.

Foto com os voluntários da Casa

Foto com os voluntários da Casa

 

A Casa, que está funcionando como centro de cultura e de acolhimento, tem capacidade para até 20 pessoas nessa terrível situação de abandono por quem mais deveria apoiá-los. A abertura contou com uma festa de inauguração, em que muitos artistas da cidade e voluntários se reuniram para fortalecer o projeto e arrecadar mais dinheiro e doações em geral para o acolhimento dos residentes. O Iran falou um pouco do porquê de ter tomado essa atitude e da importância da diversidade para ele:

Iran super feliz no grande dia. Imagem de Lucas Genovez

Iran super feliz no grande dia. Imagem de Lucas Genovez

“Eu não sei viver de uma forma que não seja essa. Estamos num ponto da nossa existência social, ambiental e cultural em que a diversidade é considerada um ‘a mais’, um fator que agrega valor para o marketing de produtos. Quando, na verdade, ele deveria ser o básico. Acho que hoje esse é um dos nossos maiores desafios. E não falando só da intolerância religiosa, ou política, que a gente tá vivendo muito forte, mas do convívio humano mesmo. Então, estamos estruturando um programa dentro da Casa 1 que é o ‘Adote um avô’.”

O Iran explicou que, nesse programa, os residentes da casa terão contato com os idosos do bairro, levando a diversidade como premissa básica para a estratégia da diversidade:

“Para ser diverso mesmo, eu preciso dialogar com o espaço em que estou, com os negros, os jovens, os heterossexuais, com os idosos, com as crianças. Tem que ser inclusivo para todos.”

Feira de literatura LGBTI para levantar fundos.

Feira de literatura LGBTI para levantar fundos.

A vontade do Iran, que faz questão de lembrar que é uma pessoa comum e consciente de que precisa usar seus privilégios para colocar a mão na massa e fazer o máximo que ele puder para mudar a realidade. Nessa caminhada, outras pessoas como o meu amigo Risaldo Carvalho Junior, que me levou para a reunião que contei ali em cima, também escolhem dar sentido para os privilégios que têm fazendo algo pelo próximo e se tornou voluntário do projeto:

Imagem de Everton Santana

Imagem de Everton Santana

“Acho que enquanto gay tenho um papel no processo de desconstrução e combate à homo/transfobia nos espaços que ocupo porque percebi que a maioria da galera LGBT não está presente – e, se está, está ou no armário ou passando por uma série de constrangimentos diariamente. Por conta de problemas como esse que a Casa 1 surge para ‘resolver’. O projeto é lindo demais, mas me entristece bastante saber que ainda tem gente sendo colocada pra fora de casa por conta da identidade de gênero e/ou orientação sexual. Não acho que doei meu tempo, muito pelo contrário! Sou imensamente grato ao Iran pela oportunidade de trabalhar com eles. A minha ‘bolha’ de militância estourou e vi que ainda temos uma luta gigantesca pela frente. E não é só pela convivência. O negócio ainda tá em nível de sobrevivência.”

Para quem quiser conhecer, a Casa 1 fica na rua Condessa de São Joaquim, 277, no centro de São Paulo, com uma vasta programação para o público geral. E, para quem não está tão próximo, fica o incentivo para que você também seja sempre a sua melhor versão e transforme a sua inquietação com os problemas em atitude. Por menor que pareça, acredite que usar a bagagem que você recebeu para se voluntariar a causas que te mobilizam pode realmente melhorar a vida de muita gente e, assim, criar uma atmosfera melhor para que todos os habitantes do nosso planetinha possam existir com mais dignidade, respeito e amor.

Rua cheia na inauguração

Rua cheia na inauguração

 

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Escrito e vivido por Damaris Souza

 

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