Sabedoria ancestral é a nova aposta pro futuro

Com problemas ambientais, políticos e econômicos à tona, buscar conhecimento ancestral virou tendência.
Usar coador de pano, panela de barro e cuidar de uma hortinha no quintal são algumas práticas dos nossos avós que estão voltando a fazer sentido. Saindo um pouco do campo dos alimentos e pensando no campo da saúde, vira e mexe vemos notícias sobre o aumento da procura por terapias integrativas como homeopatia, acupuntura, fitoterapia, meditação e yoga no Sistema Único de Saúde e nos espaços holísticos (que também estão em ascensão). E sabe o que todas elas tem em comum? São centenárias.
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foto boaPara saber mais sobre o assunto fiz algumas perguntas para a especialista, Deise Lopes Silva. Ela que é tipo uma super mulher por fazer tanta coisa ao mesmo tempo, é formada em nutrição, professora de pós graduação em fitoterapia e medicina chinesa, além de ser pesquisadora de conhecimentos tradicionais em saúde, instrutora de alquimia interna taoista (“yoga” chinesa). Por fim, também é facilitadora de mudanças para hábitos saudáveis.
Ou seja, muito curiosa e eterna aprendiz!
 Vamos a entrevista:
Vivi – O que é conhecimento ancestral e qual é sua importância?
Deise – O conhecimento ancestral ou conhecimento tradicional, é aquele passado de geração para geração dentro do contexto de uma cultura. Como o ser humano é um ser social, a preservação das suas raízes culturais e tradicionais, dentro daquilo que não desrespeita ninguém é o que nos mantêm conectados uns aos outros enquanto humanos.
Esses últimos anos de globalização, alta tecnologia e massificação nos levaram por um caminho que pode ser muito bom, que é o reconhecimento de que somos antes de tudo humanos, independente da origem ou outras características, mas também nos levou a uma perda de identidade, temos dificuldade de reconhecer quem somos, não sabemos de onde viemos, temos muitas dúvidas de pra onde caminhar. Então eu acho que o tempo todo temos que olhar pra trás, para ver o que fizemos, o que deu certo, o que não deu, o que pode ser aproveitado, o que deve ser superado (muitas culturas pregam vários tipos de preconceitos e violências, por exemplo).
Não podemos romper com nosso passado. Precisamos incorporá-lo e se necessário, ampliá-lo, atualizá-lo, mas não desconhecê-lo, ignorá-lo ou desvalorizá-lo. Precisamos ter abertura para os diferentes saberes e conhecimentos, não focar apenas no analítico racional da pesquisa científica moderna por exemplo. Artigos científicos e pesquisas de laboratórios ou baseadas em estatística são UMA forma de conhecimento. Precisamos reconhecer e integrar todos os outros tipos de saberes: tradicionais, empíricos, intuitivos, corporais, emocionais. E sobretudo voltar a conectar com o conhecimento da natureza, que nos chega também pela via da observação, da contemplação, da imersão.

Vivi – Se tudo que vivemos hoje é uma herança de gerações passadas, o modo como nos alimentamos também. Na sua opinião, como é a relação do cidadão brasileiro com o alimento hoje em dia? 

Deise – Hoje acho que temos no Ocidente moderno em geral uma relação ruim com o alimento, por que temos uma relação ruim com o nosso corpo e consequentemente com a natureza. Fomos ensinados nos últimos tempos não a honrar e respeitar o nosso corpo e a natureza, mas a discipliná-los, controlá-los, colocarmos dentro de padrões estabelecidos por indústrias, por mercado e não por saúde. Temos uma relação duplamente patológica com o alimento; por um lado somos desconectados (ninguém tem mais noção real de onde e de que forma é produzido o alimento que está no seu prato naquele momento), acelerados (comemos rápido, queremos coisas prontas, desconectamos do preparo dos alimentos) e compulsivos (comemos em excesso, comemos muitos alimentos desvitalizados, viciamos em substâncias estimulantes ou sedantes dependendo do momento – álcool, açúcar, chocolate, café, tabaco, drogas recreativas, medicamentos…
Não temos tempo nem somos ensinados a ouvir o corpo, mas a entorpecê-lo. Comemos para satisfazer o paladar do momento), mas como intimamente sabemos que este comportamento não é saudável, ou por que esperamos adequar nosso corpo a uma imagem idealizada, temos depois reações de culpa e vergonha. E aí seguimos insatisfeitos, procurando muitas vezes o alimento para suprir o vazio de conexão, de sentido, que passa entre outras coisas em resgatar nossas conexões ancestrais, nosso entendimento mais ampliado do mundo.
Vivi – Qual é a diferença entre as plantas comestíveis e as plantas medicinais? Ou elas cumprem o mesmo papel ou se complementam?
Deise – Para as medicinas tradicionais as plantas comestíveis são aquelas que são utilizadas no dia a dia, para fornecer para o corpo aquilo que ele precisa para sobreviver com qualidade. Isso de um ponto de vista absolutamente individualizado e ervas1dinâmico. A partir desta escuta do corpo. O que pode ser um super alimento para uma pessoa numa certa fase da vida pode desvitalizá-la em outro momento. Alguns alimentos que tem um pouco mais de potência, são chamados de ervas moderadas, são aqueles que podemos usar para potencializar a alimentação e para equilibrar pequenos males. Aí entram a maioria dos temperos, alguns tônicos como o ginseng, algumas sementes, cogumelos, algas. Num terceiro estágio é que vem as ervas medicinais propriamente ditas. Não vamos usá-las no nosso dia a dia, mas somente quando tivermos algum desequilíbrio que elas possam ajudar.
Vivi – O que deveríamos aprender com o conhecimento ancestral?
Deise – Acho que mais do que técnicas, deveríamos focar na visão. Os conhecimentos ancestrais de forma geral são mais holísticos, qualitativos, em contraposição a uma visão que desenvolvemos extremamente analítica, materialista, quantitativa. Sinto que nosso caminho nesse momento é aproveitar todo o acesso a informação e toda tecnologia em rede para fazer uma síntese entre estas duas visões e caminhar para o que vem sendo chamado de visão integrativa.
Vivi – Por que você optou por dedicar sua vida ao estudo dessa área?
Deise – Boa pergunta… Acho que por um vazio mesmo, por uma insatisfação com uma ciência que foca tanto em estatística e tão pouco em pessoas, tanto em princípios químicos e nutrientes e tão pouco em plantas e alimentos, muito em sintomas em pouco em fluxos e relações. As medicinas tradicionais e os conhecimentos ancestrais tem me dado isso. Ouvi alguém uma vez chamar isso de visão de altitude. Gostei. É como se você andasse por um caminho de cabeça baixa o tempo todo, olhando os pequenos detalhes, pedras, poeiras, pétalas, folhas, e de repente chegasse no alto da montanha e visse tudo aquilo junto, conectado, pulsando, se relacionando. Aí vem aquele: uaaaaaaaaaaaaau! Sabe como é? Rs…Eu gosto do estudo dos detalhes, leio um bocado de artigo científico mas acho que a gente precisa desse momento, desse uau, desse extase, dessa conexão. Se não nada faz muito sentido, pelo menos pra mim não faz.
PQN – O que cada um de nós podemos fazer dentro de nossas casas, dentro de nossas cozinhas para colaborar com um futuro mais integrado e sustentável?
Deise – Acho que começar por botar consciência: eu sei o que eu to comendo? O que são todos aqueles nomes e siglas nos rótulos dos meus alimentos? Eles me fazem bem? Eles precisam mesmo estar aí? E o meu alimento vem de onde? Quem são as pessoas que produzem? Em que condições? Tem algo que acontece na produção destes alimentos que me desagrada? Eu tenho opções? Quais são? Acho que esse é um primeiro momento.
Num segundo momento fazer as opções que fazem mais sentido. Eu quero comer sem veneno? Então vou numa feira, peço uma cesta, participo de um CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura, saiba mais aqui). Mas daí eu vou aprender que não dá pra comer tomate o ano inteiro, manga o ano inteiro…Vou ter que lidar com a variabilidade das safras… Eu quero comer coisas com menos aditivos: vou ter que comprar de um produtor local, vou ter que em acostumar que eles podem durar menos, que eu não posso esquecer por meses no armário…
E isso tudo eu acho que fica mais fácil se você se conecta com pessoas que tão no mesmo caminho que tem o mesmo desejo e de alguma forma forma uma comunidade. Este é um outro aspecto crucial também das sabedorias ancestrais: o sentido de pertencimento, de pertencer a uma família, um clã, uma tribo, um grupo. De pertencer a um determinado habitat natural. Hoje em dia se fala muito em comunidades intencionais. Acho isso genial. São pessoas que não são sua família de sangue, que de repente nem moram perto, mas que juntam por este vínculo reforça e fortalece atitudes e escolhas individuais. Acho que tem um caminho muito bonito por aí.
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Veja a entrevista “Ciência, Conhecimento Ancestral e Plantas Medicinais”:
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Artigo por Viviane Noda
Entrevistada: Deise Lopes Silva entre em contato com ela pelo email instituvitta@gmail.com

Uma Resposta para “Sabedoria ancestral é a nova aposta pro futuro

  • Que mulher sensacional!!!
    Muito conhecimento, varias sacadas muito bem expressas
    Que o universo me ilumine com essa clareza mental hahaha

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